Outro dia, mexendo nas minhas coisas para organizar uns papéis antigos, encontrei uma foto da época de escola. Éramos cinco caras espremidos em um banco de praça, rindo de alguma piada que hoje eu nem lembro mais qual era. Naquela época, a gente achava que aquele grupo seria eterno. Fazíamos planos para trabalhar juntos, morar perto e manter a mesma resenha para o resto da vida.
Hoje, se eu cruzar com metade deles na calçada, o máximo que vai acontecer é um aceno de cabeça meio sem jeito e aquela pergunta protocolar: "E aí, sumido, tudo bem?".
No começo, esse distanciamento causa uma sensação estranha de culpa. Você se pega pensando se errou em não mandar mensagem, se a correria do trabalho justificava o sumiço ou se o grupo do aplicativo de mensagens morreu por falta de interesse seu. Mas, olhando para trás com mais maturidade, você percebe que ninguém é o vilão da história. É apenas o tempo fazendo o papel dele.
A verdade é que as amizades da juventude costumam nascer da conveniência geográfica. A gente era muito próximo porque dividia a mesma sala de aula, o mesmo ônibus ou o mesmo campinho de futebol no fim de tarde. O layout da vida era o mesmo para todos.
Só que o tempo passa, os bastidores mudam e cada um precisa assumir as rédeas do próprio destino. Um cara foca em uma profissão diferente, outro muda de cidade, um terceiro assume responsabilidades familiares que consomem todo o seu tempo disponível. Os horários já não batem, os assuntos começam a faltar e aquele silêncio que antes era preenchido por intimidade vira um abismo de visões de mundo totalmente diferentes.
Aceitar o fim desses ciclos não significa ser frio ou ingrato. É preciso ter a grandeza de entender que algumas pessoas entram na nossa vida para nos acompanhar em uma fase específica, e não na jornada inteira. Eles foram fundamentais para construir o homem que você é hoje, dividiram os primeiros medos, as primeiras frustrações e os planos que pareciam gigantescos.
Guardar essas memórias com respeito e carinho é o jeito certo de honrar o passado. Mas a cadeira vazia que o tempo deixa na nossa mesa serve também para abrir espaço. É limpando a agenda dessas conexões que já não fazem mais sentido que a gente ganha foco para os novos projetos, espaço para novas parcerias de bastidores e maturidade para valorizar os poucos e bons amigos que, contra todas as probabilidades da rotina, decidiram continuar do nosso lado.
