O silêncio do apartamento parecia ter se instalado de vez entre as paredes. Nos três dias seguintes à partida de Estela, eu me peguei repetindo as palavras dela na minha cabeça, como um disco arranhado que não parava de tocar. “Você sempre estava disponível... e isso cansa”.
Será que ser um cara prestativo era um defeito? Valeu a pena ter me doado tanto, ter mudado de bairro, ter deixado meus amigos e a minha rotina para trás por alguém que achou o meu cuidado sufocante? Essas perguntas batiam forte no meu peito, e a sensação de ter apostado tudo nas cartas erradas começou a transbordar para a única coisa que eu ainda tinha sob controle: o meu trabalho.
No supermercado, a minha eficiência desapareceu. Eu olhava para os paletes de mercadoria e não conseguia focar. Esquecia de rodar os produtos vencidos, deixava caixas vazias acumuladas no corredor e errava o alinhamento das gôndolas que antes eu organizava de olhos fechados. O gerente passou por mim duas vezes chamando a atenção, com o olhar de quem não estava entendendo o meu sumiço mental. Deitado no chão do estoque durante o intervalo, olhando para as vigas do teto, a dúvida virou crise: se eu não servia para o relacionamento da minha vida e nem para ser um repositor decente, será que eu era bom em alguma coisa?
Com o uniforme pesado e o corpo exausto, peguei o celular para passar o tempo e tentar distrair a cabeça. Rolando a tela sem rumo, parei em um vídeo curto de um cara falando direto para a câmera, com uma postura firme e sem rodeios. Era o tipo de conteúdo que eu normalmente passaria batido, mas a primeira frase me travou.
“Algumas pessoas simplesmente não estão prontas para ser bem tratadas, e isso é um problema delas, não seu”, dizia o homem no vídeo. Ele explicava que amadurecer significa entender que muitos de nós agem com os outros da forma como gostaríamos de ser tratados, entregando o nosso melhor na esperança de reciprocidade. “Se alguém achou o seu melhor pesado demais ou cansativo, o limite é da capacidade dessa pessoa de receber afeto, não da sua engrenagem. Não mude a sua essência só porque alguém não soube o que fazer com ela.”
Aquelas palavras funcionaram como um estalo na minha mente. Sentado naquele estoque barulhento, a ficha finalmente caiu: não tinha problema nenhum comigo. Eu não era um fracasso por ter sido parceiro, prestativo e presente. O erro foi ter colocado a chave da minha própria valorização na mão de outra pessoa.
Olhei para o layout bagunçado do corredor à minha frente e me levantei, limpando a poeira da calça. Estela tinha ido embora, e no futuro ela seria apenas uma lembrança distante de uma fase em que eu ainda estava aprendendo a andar com as minhas próprias pernas. O presente, no entanto, exigia a minha presença. Eu precisava voltar a focar no meu trabalho, organizar o meu estoque e reconquistar a minha postura.
Antes de querer ser o melhor parceiro, o melhor apoio ou o porto seguro de qualquer outra pessoa, eu precisava aprender a ser o melhor para mim mesmo. Guardei o celular no bolso, peguei o estilete e voltei para o corredor de limpeza. Era hora de colocar cada coisa no seu devido lugar — a começar pela minha própria vida.
